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Marco de um ano para eleições de 2024 reforça peso da polarização entre Lula e Bolsonaro

Especialistas avaliam que influência de Lula e Bolsonaro dividirá espaço com questões locais nos pleitos de 6 de outubro do ano que vem.

Marco de um ano para eleições de 2024 reforça peso da polarização entre Lula e Bolsonaro

Montagem/Ricardo Stuckert/Marcos Corrêa

 

A movimentação partidária e a indicação de pré-candidatos para o pleito ganha espaço  Stuckert/Marcos Corrêa

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Em um ano, no dia 6 de outubro de 2024, os brasileiros voltarão às urnas, desta vez para escolher prefeitos e vereadores nas eleições municipais, mas ainda sob efeitos da polarização da última eleição presidencial, principalmente nas maiores cidades, avaliam especialistas ouvidos pela CNN.

A movimentação partidária e a indicação de pré-candidatos para o pleito ganha espaço, ainda sob a sombra da disputa acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que dividiu esses mesmos brasileiros no ano passado.

“As eleições municipais são pautadas por demandas locais, mais concretas, sobretudo em cidades pequenas e médias. Nas principais capitais, há um grau de nacionalização”, diz Mauricio Fronzaglia, professor de ciência política da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da escola de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Glauco Peres, professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), considera que esse “grau de nacionalização” pode, de alguma forma, guiar as campanhas em 2024, mas também de maneira restrita às cidades mais populosas: “No restante, as questões locais sempre pesaram e ainda devem pesar mais nas escolhas”.

Disputa acirrada

Para cientistas políticos ouvidos pela CNN, o engajamento em torno de Lula e Bolsonaro pode influenciar as disputas locais — tanto pelo apoio quanto pela rejeição.

A eleição do presidente Lula em 2022, com 50,9% dos votos válidos, foi a menor vantagem obtida por um eleito na história do cargo. Em 15 das 27 capitais do país, o candidato menos votado superou 40% do eleitorado no segundo turno.

Em agosto, pesquisa AtlasIntel, feita com exclusividade para a CNN, indicou que, para 46,2% dos entrevistados, o apoio de Lula ou Bolsonaro é relevante para definir seu próximo voto.

No caso da cidade de São Paulo, pesquisa Datafolha de setembro apontou que 68% dos moradores não votariam de forma alguma em um candidato indicado pelo ex-presidente. Já 13% disseram que votariam num nome de Bolsonaro com certeza, e 16% disseram que talvez votassem.

A pesquisa também questionou sobre a possibilidade de votar em um candidato indicado pelo presidente Lula: 37% não votariam de maneira alguma; 23% votariam com certeza; e 37% talvez o fizessem.

Na capital paulista, o PT não terá candidatura própria pela primeira vez, após anunciar apoio ao deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), enquanto o PL ainda não formalizou apoio a uma chapa.

O ex-presidente chegou a se encontrar com o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que busca a reeleição e pode receber o apoio da sigla. Por outro lado, o deputado Ricardo Salles, ex-ministro de Bolsonaro, tenta se viabilizar e já recebeu até o “aval” do ex-chefe para buscar outra legenda e sair candidato.

Fronzaglia lembra que, mesmo com altos índices de popularidade, o atual presidente teve dificuldades com apoios na capital: “A influência tem limites. Em 2008, por exemplo, Marta Suplicy [ex-prefeita da capital pelo PT] não conseguiu se eleger”.

Glauco lembra que, além de Lula e Bolsonaro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) poderá ser um “padrinho importante” na cidade.

Questões particulares

Renato Dorgan, cientista político e especialista em pesquisas qualitativas, acredita que, com as questões locais, a polarização ganha outra forma. “Onde há administrações mal avaliadas, seus opositores ganham força. Onde há avaliações positivas, há tendência de reeleição”, diz.

O pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV) Jairo Pimentel menciona que, ao contrário das eleições gerais — quando as escolhas de governadores, senadores e deputados ocorrem em conjunto com a presidencial — “haverá um afastamento dessa relação” no sufrágio municipal. “De qualquer forma, a força do petismo, do bolsonarismo e, em conjunto, do ‘antipetismo’ e do ‘antibolsonarismo’, podem polarizar a eleição em alguns centros”, opina.

Situação de Lula e Bolsonaro

Neste ano, Bolsonaro foi afetado por notícias de caráter negativo, como o envolvimento de integrantes de seu governo na venda ilegal de joias recebidas pelo governo e o julgamento que o tornou inelegível pelo prazo de oito anos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Seu partido, o PL, tenta demonstrar força sem o principal expoente no poder. Por outro lado, o PT tentará se recuperar na volta ao governo federal, após ficar sem o comando de capitais pela primeira vez na história em 2020.

Na avaliação de Peres, o petismo tem “uma perspectiva melhor” para o próximo ano, em relação aos últimos sufrágios municipais.

Ele considera que o bolsonarismo segue popular, mas será colocado à prova do ponto de vista eleitoral pela falta de “um partido claramente identificado”. O ex-presidente se filiou ao PL somente em 2021.