
Estiagem no Amazonas é a maior da história (Foto: Josemar Antunes)
A mudança climática é um assunto discutido no mundo que busca encontrar soluções para reverter o cenário. Em meio aos reflexos das alterações no bioma estão os gases do efeito estufa. No Amazonas, queimadas, estiagem severa, desmatamento, deslizamento de terras e poluição com emissão de gases e produtos tóxicos têm deixado graves impactos, afetando milhares de pessoas no hábito de vida.
Na região Amazônica, a seca histórica e queimadas mostram a gravidade dessa alteração climática no ciclo produtivo de animais e plantas. A maior biodiversidade do mundo registra cenas chocantes com rios, lagos e igarapés secos, além da fumaça subindo pelo céu amazônico.
Associada às altas temperaturas, a estiagem severa já provocou a mortandade de animais – com registro da perda de mais de uma centena de botos-cor-de-rosa e tucuxis em Tefé (a 523 quilômetros de Manaus), onde a temperatura da água do Lago de Tefé atingiu 40º C.
Outros efeitos deste desastre climático são a falta de alimentos e de água potável, comprometimento do transporte fluvial nos rios Solimões e Madeira. Em virtude da fortíssima seca e queimadas, milhares de famílias ribeirinhas foram prejudicadas e o Amazonas decretou emergência ambiental.
A estiagem tem sido também o motivo para baixas produções e diminuição da variedade de produtos na Floresta Nacional (Flona) de Tefé, com destaque ao cultivo de pequenas roças de mandioca, para a produção de farinha.
De acordo com o agricultor Francisco Darcio Falcão, de 49 anos, os agricultores sofreram com as altas temperaturas e mortandade de peixes. Ele ressalta ainda que tanto mercadorias quanto transporte ficaram encarecidas.
“Durante a estiagem, várias pessoas sofreram com a isolação e a mortandade de peixes e botos, algo novo para nós. Eu tenho uma residência em Tefé, mas há quatro meses trabalho na Flona com produção de farinha e outros produtos da agricultura familiar”, explicou Francisco.
Devido à baixa dos rios, agricultores relatam que estão pagando mais caro para escoar produtos. O reajuste nos valores do frete afetou quem não tem condições de pagar, diz Francisco que é pai de cinco filhos e é um dos moradores da Flona de Tefé, unidade federal criada em 1989 na região do Médio Solimões no estado do Amazonas, por meio do Decreto nº 97.629.
Ajuda humanitária
A Defesa Civil do estado do Amazonas e os coordenadores da Defesa Civil dos municípios do interior realizaram reunião para minimizar os impactos na busca de soluções mais efetivas e adequadas.
De acordo com o Governo do Estado do Amazonas, entre outubro e novembro deste ano, 500 toneladas de mantimentos já foram destinadas à população, sendo 400 para comunidades ribeirinhas e 100 para 170 comunidades indígenas afetadas pela estiagem.
A ajuda humanitária com cestas básicas, kits de higiene, água potável e medicamentos faz parte das ações do Comitê Intersetorial de Enfrentamento à Situação de Emergência Ambiental, instituído pelo governador Wilson Lima.
Segundo o órgão, mais de 120 comunidades rurais foram afetadas nas cidades de Alvarães, Amaturá, Benjamin Constant, Careiro da Várzea, Envira, Itacoatiara, Manacapuru, Manaquiri, Novo Aripuanã, Parintins, Tefé e Tonantins. A estiagem atinge diretamente quase 600 mil pessoas em todos os 62 municípios do estado neste ano. Todas as cidades do AM entraram em estado de emergência por conta da seca histórica.
Desafios
O geógrafo e ambientalista, Carlos Durigan, comentou que o processo do aquecimento global dos últimos anos contribuiu com o efeito estufa e a ação humana acelerou. A queimas de combustíveis fósseis e a concentração de gases como metano, carbono entre outros formam o efeito estufa.
“Toda a produção da sociedade humana contribui para a degradação de ambientes naturais com o desmatamento de florestas que leva a maior emissão de gases também nocivos, uma vez que a floresta é um grande reservatório de carbono. Temos efeitos cumulativos e que levam ao aquecimento expressivo da atmosfera. Nós temos hoje um processo de aquecimento em curso e irreversível. As COPs são conferências para discutir as regras práticas da Convenção do Clima, no intuito de buscar alternativas e reduzir as emissões de gases. O que se espera é desacelerar o aquecimento e não causar tanto desiquilíbrio”, explicou.
Durigan ressalta que os efeitos são muitos para fortalecer o aquecimento global. Os períodos chuvosos mais intensos do que o habitual e períodos secos são exemplos de relação extrema. Ele afirma ainda que as queimadas na Amazônia são de origem humana e que elas podem ser propositais ou acidentais. Os acordos entre países e sociedade constituem fundos emergenciais para enfrentamentos de crises e reduzir o cenário de menos emissões de gases.
“Durante o período de El Niño, os efeitos acontecem de forma mais intensa com aquecimento das águas do Oceano Pacífico e que levam alguns efeitos sobre todo o planeta. No caso da Amazônia, esses períodos de El Niño estão relacionados tanto pela seca dos rios por conta da ausência de chuvas e queimadas naturalmente provocadas por pessoas, mas também pelo fato da floresta está mais seca, fica propicia aos incêndios florestais. 2023 já é um dos anos mais quente historicamente e o desafio é conter essa aceleração do aquecimento. Precisamos trabalhar e adaptar-se para que esses efeitos sejam menos frequentes, mas podemos dizer que estamos com o futuro bastante incerto em relação a eventos extremos”, completou.
Fumaça
Encravada no meio da floresta, Manaus, capital do Amazonas, ficou encoberta por nuvens espessas de fumaça causada por queimadas em municípios da Região Metropolitana e também de áreas rurais do estado do Pará.
Segundo a delegada Juliana Viga, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra o Meio Ambiente e Urbanismo (Dema), a fumaça é proveniente das queimadas. A delegacia registrou três denúncias de incêndios na capital.
“A fumaça intensa é decorrente nos municípios amazonense e paraense, de acordo com informações do Corpo de Bombeiros. Em Manaus, tivemos situações de queimas de folhas, de uma árvore e outra de uma área ocupada por um morador de rua que fez fogo para esquentar uma panela com alimentos. As chamas acabaram se alastrando”, explicou a delegada Juliana viga.
A autoridade policial ressalta que os incêndios em área urbana o autor responde pelo crime de poluição. Já a queima em áreas de floresta ou mata a pessoa irá responder por provocar incêndios. Em caso de dolo, a pena é de um a quatro anos de reclusão. Se for culposo, a detenção é de seis meses a um ano.
Viga reforça que a maior parte das denúncias é feita de forma presencial na delegacia ou pela delegacia virtual. As denúncias podem ser feitas pelo número (92) 3667-7741, o disque-denúncia da Dema, ou pelo número 181, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP-AM).
Focos de incêndios em Manaus
De acordo com os dados do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMA), 415 focos de calor foram registrados no período de 8 a 10 de outubro deste ano, em áreas da Região Metropolitana de Manaus. No mesmo mês, com ações emergenciais de combate às queimadas e à seca, de 11 a 15, as ocorrências diminuíram para 28.
Já entre 12 de julho a 15 de outubro de 2023, 2.386 focos de incêndios foram combatidos no Amazonas, sendo 1.691 no interior e 695 na capital. As queimadas provocaram uma nuvem de fumaça em Manaus.
Queimadas na Amazônia
Dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), Os três primeiros meses de 2023 não foram fáceis para a Amazônia. Em fevereiro de 2023, as queimadas aumentaram 78% em relação ao mesmo período do ano passado. Dados mostram que foram registrados 1.385 focos ativos de fogo na Amazônia Legal.
Segundo o site Amigos da Terra, os focos de queimadas se concentraram no Mato Grosso e Roraima, onde foram detectados 576 e 505 focos de queimadas, respectivamente. No Mato Grosso, o número representa uma alta de 12% em relação a fevereiro e de 6% em relação a março do ano passado.
Já em Roraima, o aumento no número de focos na comparação com períodos anteriores foi ainda mais significativo – seis vezes maior que o detectado em março de 2022 (81) e três vezes maior do que o registrado em fevereiro deste ano (168).
Os números também chamam a atenção em outros estados. No Maranhão foram detectados 106 focos de fogo em março, número 2 vezes maior que a média observada para a série histórica iniciada em 1998 e o observado em março do ano passado.
No Pará e em Rondônia o número de focos de fogo foi recorde, 94 e 38, respectivamente. No primeiro estado o número foi o maior desde 2010 e, no segundo, o maior desde o início da série histórica, em 1998.
Em Tocantins, foram registrados 77 focos, número que representa um aumento de 57% em relação ao mesmo período do ano passado e 35% em relação à média mensal.
Os desafios e as necessidades são urgentes
A região Amazônica, conhecida por sua exuberante biodiversidade, enfrenta uma situação preocupante com extremos climáticos: secas e cheias além da normalidade, impactam severamente grande parte da região, desencadeando consequências graves para a biodiversidade, o ecossistema e as comunidades locais. A Amazônia tem sua biodiversidade ameaçada pela lógica mercantilista de extração e exploração de recursos naturais desde a chegada dos europeus no novo continente, o qual batizaram de “América”. O desmatamento, as mudanças nos padrões das chuvas e as alterações na temperatura, influenciam diretamente na maior frequência de cheias e secas extremas, afetando a floresta e sua capacidade de absorver carbono. Os desafios e as necessidades para que se encontrem soluções que colaborem para que essa situação não chegue a um ponto irreversível, são urgentes e inadiáveis.
Já foi amplamente divulgada a informação da condição da Amazônia enquanto um importante sumidouro de carbono e o modo como o seu desmatamento contribui para as emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global. Nos últimos anos, a Amazônia tem enfrentado períodos prolongados de estiagem, resultando em secas severas. Os rios, fonte de vida e mobilidade na região, tem baixado para níveis alarmantes, afetando a navegação e a vida aquática. Essa escassez de água compromete não apenas a fauna e a flora, mas também a subsistência de comunidades ribeirinhas e indígenas que dependem de recursos híbridos para sobreviver. A desarmonia ambiental na Amazônia desencadeia uma série de consequências que afetam não apenas a região, mas o planeta como um todo. O desmatamento, as mudanças climáticas e as queimadas fora de controle, são os principais causadores desse desequilíbrio.
Em contraponto à seca, a Amazônia tem experimentado cheias acima da normalidade. Durante o chamado “inverno amazônico”, volumes elevados de precipitação chuvosa, levam os rios a ultrapassar seus limites, inundando vastas áreas de floresta e de “várzeas”, que são as terras próximas aos leitos fluviais. As mudanças nos padrões climáticos, o desmatamento e a urbanização, são fatores que colaboram para o aumento das águas das chuvas, elevando o nível dos rios e causando inundações fora da sazonalidade. Essas inundações têm deslocado a paisagem, destruindo plantações e habitats naturais, causando desequilíbrio e intensificando a pressão sobre os ecossistemas já bastante fragilizados.
É importante ressaltar que, no caso de Manaus e outras cidades da região amazônica, as chuvas intensas causam alagamentos e deslizamentos, mas a vulnerabilidade das cidades e a falta de infraestrutura adequada para lidar com esses eventos, agravam a situação. O desenvolvimento urbano desordenado, a ocupação de áreas de risco, a falta de drenagem eficiente e a ausência de planejamento adequado, são fatores sociais que contribuem para a ocorrência e agravamento desses desastres.
A Amazônia desempenha um papel crucial na regulação do clima global, os extremos climáticos na região causam um impacto diversificado. O desequilíbrio ecológico resultante afeta diretamente a biodiversidade, ameaçando espécies únicas e alterando os ciclos naturais. Além disso, as comunidades tradicionais enfrentam desafios socioeconômicos, desde a perda de cultivos até a interrupção das rotinas cotidianas. A população ribeirinha e os indígenas que vivem na Amazônia, majoritariamente da caça, coleta e pesca de subsistência, encontram nessa atividade a base essencial do seu modo de vida. O desmatamento e as alterações no equilíbrio natural da região impactam diretamente os padrões climáticos, contribuindo para os eventos radicais, como as secas e as cheias desproporcionais em diferentes partes do mundo.
Desafios e necessidades urgentes no enfrentamento da crise
Enfrentar esses extremos requer esforços coordenados. Investimentos em tecnologia e pesquisa, políticas de conservação, engajamento comunitário e cooperação internacional, são cruciais para entender melhor essas previsões meteorológicas e prever suas ocorrências. Além disso, a implementação de medidas de adaptação e políticas de defesa da região, são essenciais para a conservação da biodiversidade e proteção de suas comunidades. Implementar políticas rigorosas que evitem o desmatamento ilegal e promovam práticas agrícolas sustentáveis e de baixo impacto ambiental respeitando os ecossistemas locais, são desafios que devem ser buscados constantemente para preservação dessa região vital.
As mudanças na paisagem revelam a fragilidade do bioma Amazônico
“O bioma Amazônico chega a ocupar uma área de 4.196.943 Km², que corresponde a mais de 40% do território nacional e é constituída principalmente por uma floresta tropical. A Amazônia passa pelo território do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, parte do Maranhão e Mato Grosso, Rondônia e Tocantins. A Amazônia é formada por distintos ecossistemas como florestas densas de terra firme, florestas estacionais, florestas de igapó, campos alagados, várzeas, savanas, refúgios montanhosos e formações pioneiras. Mesmo sendo o nosso bioma mais preservado, cerca de 16% de sua área foi devastada, o que equivale a duas vezes e meia a área do estado de São Paulo” Fonte/ IBF-Instituto Brasileiro de Florestas
A busca pelo equilíbrio
A situação dos extremos climáticos na Amazônia exige uma abordagem integral e urgente. Preservar esse tesouro natural e proteger aqueles que dependem dele, são desafios que exigem ação imediata e cooperação global. O futuro da região Amazônica está intrinsecamente ligado à nossa capacidade de mitigar os efeitos desses extremos e promover a sustentabilidade. Para o Brasil, a destruição da floresta amazônica causaria um processo particularmente destrutivo que implicaria na perda irreversível de diversos recursos naturais, culturais e econômicos que afetaria drasticamente toda a região, sua fauna, sua flora, seus habitantes naturais como os indígenas e as comunidades tradicionais ribeirinhas, e provocaria um rastro de destruição, fome e morte nas cidades de toda Amazônia. A Amazônia requer atenção.











