
Delegado Péricles, deputado estadual pelo PL (Foto: Márcio James)
Manaus (AM) – A Assembleia Legislativa do Amazonas parece ter decidido brincar com a paciência do povo. Em meio a uma realidade marcada por gargalos na saúde, precariedade no transporte, desafios históricos na educação e abandono estrutural do interior, surge uma proposta que soa como escárnio: conceder ao senador Flávio Bolsonaro o título de cidadão do Amazonas. A proposta é do Delegado Péricles, deputado estadual pelo PL.
A pergunta é direta e incômoda: o que, exatamente, Flávio Bolsonaro fez pelo Amazonas? Onde estão os projetos estruturantes, as emendas decisivas, a atuação firme em defesa da Zona Franca, dos povos da floresta ou da economia regional? O título, que deveria simbolizar contribuição concreta e vínculo real com o Estado, parece ter sido reduzido a moeda política de ocasião.
O instituto da cidadania honorária não é ilegal, mas seu uso indiscriminado o transforma em um gesto vazio, desconectado da realidade de quem vive e paga impostos no Amazonas. Quando homenagens passam a ser distribuídas sem critério objetivo, elas deixam de ser reconhecimento e se tornam propaganda.
Mais grave ainda é o contexto. Ano eleitoral. Tempo em que discursos simbólicos substituem ações práticas, e gestos de impacto tentam mascarar a ausência de resultados. Enquanto o cidadão amazonense sustenta a máquina pública com tributos cada vez mais pesados, parte da classe política parece mais preocupada em agradar grupos ideológicos do que em representar os interesses do Estado.
Cabe também outra pergunta incômoda: o parlamentar que propõe esse título perdeu completamente a noção do seu papel? Representar o Amazonas não é prestar continência a sobrenomes nacionais, mas defender quem enfrenta filas em hospitais, estradas intrafegáveis e serviços públicos insuficientes.
A proposta não ofende apenas o bom senso institucional. Ela desrespeita o cidadão amazonense, que espera ser representado por políticos comprometidos com resultados, não com gestos simbólicos de conveniência eleitoral.
Se o título de cidadão do Amazonas já serviu para reconhecer contribuições reais ao Estado, hoje corre o risco de virar apenas mais um adereço de campanha. E, diante disso, a sociedade precisa refletir: vale a pena manter no poder quem confunde representação com palanque?
O Amazonas merece mais. Merece respeito. Merece ser levado a sério.







